Feche os olhos e pense na Índia. O que você vê? Uma cor, um rosto, uma rua movimentada, uma paisagem, um ritual...? A Índia não é uma única coisa só: é as cores de Jaipur e as ruas de Deli, a memória e a mudança, a multiplicidade e o indivíduo, aquilo que permanece e aquilo que nunca deixa de se transformar. Alguns lugares parecem pedir ao fotógrafo que encontre o enquadramento certo e permaneça ali. A Índia, ao contrário, leva o fotógrafo a se mover.
Então, como o primeiro Calendário Pirelli realizado na Índia poderia ser moldado por um único olhar? O projeto nasce desses movimentos: dar um passo para trás para permitir que o presente habite o passado; aproximar-se com o cuidado necessário para captar a singularidade de um rosto. As fotografias não confinam a Índia a uma única visão. Pelo contrário, mostram que toda imagem também é um ponto de vista: o ponto a partir do qual o fotógrafo observa, além do qual o mundo continua.
Um lugar para voltar
Raghu Rai começou a fotografar a Índia em 1965. Durante mais de 60 anos, percorreu as ruas e cidades em constante transformação, observando a vida pública, os momentos privados e o cotidiano. Conhecia profundamente o país, mas essa familiaridade jamais o tornou um tema definitivo. A Índia permaneceu um lugar ao qual ele sempre retornava. Cada fotografia podia revelar um fragmento, mas nenhuma era capaz de estabelecer uma forma definitiva.
Para o Calendário, Raghu imaginou colocar imagens de seu arquivo em diálogo com a Índia contemporânea. Fotografias separadas por décadas compartilhariam o mesmo espaço, permitindo revelar aquilo que o tempo transformou e aquilo que continuou a existir, talvez sob outra forma.
Ele vinha trabalhando no projeto havia vários meses quando faleceu, em abril de 2026, aos 83 anos. Sua filha, Avani Rai, também fotógrafa, deu continuidade à sua ideia, mas não simplesmente a concluiu. Para permanecer fiel, ela precisou encontrar sua própria distância.
Originalmente, o projeto havia sido pensado para ser realizado em estúdio. Em vez disso, Avani decidiu levá-lo às ruas da Velha Deli, aos lugares que seu pai fotografou ao longo de toda a carreira, de Kinari Bazaar a Yamuna Ghat.
"Ele pertencia às ruas", afirma. "Por isso, levei a ideia em que ele estava trabalhando para as ruas e para as pessoas que fotografou durante toda a vida."
Avani selecionou fotografias feitas por seu pai e retornou aos locais onde haviam sido registradas. Não tentou recriá-las. Em vez disso, colocou essas imagens diante da câmera e deu um passo para trás, fotografando a imagem original juntamente com a realidade que hoje a cerca.
"Dou um passo para trás no sentido espiritual, concreto e literal. Fico atrás dele", explica. "Enquadro ele, seu trabalho e a realidade que existe 30, 40 ou 50 anos depois."
Mais de 200 pessoas entram no novo enquadramento: moradores, dançarinos, artistas, artesãos e a mãe de Avani. A fotografia do passado permanece no centro, enquanto a vida continua a fluir ao seu redor.
Raghu já não está mais presente, mas permanece na obra. Seu olhar continua visível, enquanto o de Avani revela o tempo que se acumulou ao seu redor. Pai e filha não olham para a Índia a partir da mesma posição, mas suas imagens passam a habitar o mesmo presente.
"O passado sempre existirá no presente", diz Avani. "Ele está em toda parte, nas nuances."
Aproximando-se
Sølve Sundsbø também precisou encontrar a distância a partir da qual olhar para a Índia. A sua, porém, é a distância de quem está chegando. O fotógrafo norueguês não procura ocultar essa condição, nem transformar seu olhar em algo neutro. Pelo contrário, faz dela o ponto de partida do trabalho. "Ficou muito claro para mim que eu não poderia realizar este projeto sozinho", afirma. "Eu não tinha o direito de fazê-lo sozinho". A colaboração estabelece um equilíbrio necessário entre diferentes perspectivas. "Trabalhar com alguém que tem sido os olhos da Índia desde 1965 permitiria que ele se concentrasse mais na alma da Índia", explica, enquanto o olhar de Sølve Sundsbø poderia permanecer centrado nas pessoas da Índia. "Para mim, a essência do Calendário são as pessoas." A decisão de não representar a Índia em sua totalidade não limita o projeto, mas lhe dá forma. Em vez de buscar uma única imagem capaz de conter o país, Sølve Sundsbø concentra-se em nove encontros. "Queríamos reunir um grupo muito diverso de talentos", afirma. "Poetas, músicos, arquitetos, modelos e atrizes."
No Forte de Jaigarh, em Jaipur, e em Ajabgarh, no distrito de Alwar, em Rajasthan, ele fotografa mulheres cujas vidas e trajetórias estão ligadas à Índia: as atrizes Aditi Rao Hydari e Avantika Vandanapu; a atriz e produtora Freida Pinto; a musicista e compositora Anoushka Shankar; a poeta e performer Rupi Kaur; as modelos Lakshmi Menon e Bhavitha Mandava; a autora, produtora e apresentadora de televisão Padma Lakshmi; e Avani Rai, que aparece no Calendário tanto atrás da câmera quanto, ao mesmo tempo, diante das lentes de Sølve Sundsbø.
Cada retrato preserva sua própria identidade e carrega a linguagem visual de Sølve Sundsbø, moldada pela fotografia de moda, pela experimentação e pelo retrato. Não se pede que essas mulheres se tornem símbolos da Índia. Nenhuma delas é chamada para representar o país em sua totalidade. São indivíduos, não alegorias: cada uma leva para a imagem sua própria história, seu talento e sua maneira de ocupar o espaço.
É assim que a Índia entra nos retratos: não por meio de uma definição geral, mas pela precisão de um rosto, de uma postura, de um encontro. Sølve Sundsbø se aproxima, mas não ultrapassa a distância de respeito que separa o fotógrafo da pessoa diante de sua câmera.
Um país além do enquadramento
Os dois movimentos não conduzem à mesma imagem.
Raghu e Avani Rai olham para a Índia através do tempo: ele, retornando às ruas e estradas ao longo de mais de 60 anos; ela, dando um passo para trás para revelar quanto do presente se acumulou ao redor das fotografias de seu pai. Sølve Sundsbø, por sua vez, encontra a Índia por meio de nove mulheres contemporâneas. Ele se aproxima de seus rostos sem pedir que qualquer uma delas se torne o rosto de um país inteiro.
De um lado, o passado continua a viver no presente. Do outro, o presente se revela por meio da singularidade de cada encontro. As perspectivas permanecem distintas, porque o objetivo não é reuni-las em uma visão definitiva. A Índia emerge por meio da distância e da intimidade, da memória e da imediatez, da continuidade e da transformação: no arquivo e na rua, nas fotografias herdadas e nos novos rostos.
Cada imagem revela onde o fotógrafo se posiciona, a distância que escolhe e o que se torna visível a partir desse ponto de vista. Ainda assim, toda vez que a Índia parece entrar no enquadramento, uma parte dela inevitavelmente continua além da borda do enquadramento.