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Senna, a estreia do jovem prodígio: de Pirelli

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Senna, a estreia do jovem prodígio: de Pirelli

Começo de 1984. O Brasil acabara de celebrar um título mundial na Fórmula 1. Era o quarto triunfo nos últimos 11 anos. Nesse recorte de tempo nenhum outro país chegava perto do que estávamos conquistando. As celebrações desses campeonatos eram notórias, muita gente comemorava-os nas ruas. Mesmo depois de tanto sucesso, um piloto, que ainda não havia feito uma corrida sequer na categoria, já chegava abalando as estruturas do esporte e dos brasileiros, Ayrton Senna da Silva, com um parceiro importante: a Pirelli.

Fomos atrás de quatro grandes jornalistas que viveram intensamente essa época, e o desdobramento dela, para revelarmos quem era esse piloto brasileiro que chegava à categoria e já era muito falado por todos. Para isso, fizemos uma regressão até 84, Grande Prêmio do Brasil, Autódromo de Jacarepaguá, Rio de Janeiro, palco da primeira etapa da temporada e da estreia deste que viria a ser um ídolo de toda uma nação.

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Quem era Ayrton Senna?

“Na época ele já era visto como um futuro campeão. As 22 vitórias na F Ford 2.000 em 82 fez dele o maior vencedor do ano entre todas as categorias”, disse Lito Cavalcanti, na época jornalista da IstoÉ. Ayrton tinha uma ascensão meteórica e fulminante até a entrada na Fórmula 1. Em 83, no ano que antecedeu a sua estreia na categoria, ele acabara de se consagrar como campeão da Fórmula 3 inglesa, o campeonato de acesso de maior peso naquela época.

“[Ayrton era] O ser humano mais carismático que já conheci. Ele chegava e mudava o ambiente, atraia a atenção de todos a ponto de nos perguntarmos de onde vinha aquele magnetismo quase palpável”, revelou Livio Oricchio, um ainda estudante de jornalismo na época, mas que acompanhou a carreira de Senna por muitos anos. “Ayrton em 84 já era uma pessoa que me impressionava muito pela autoconfiança, a maior que eu já vi em qualquer atleta. O que eu ouvia dele, em conversas reservadas, me levavam a pensar: certamente o cara é muito bom, mas como pode ter certeza de que será campeão do mundo? Aos poucos, pela convivência com ele, eu também fui me convencendo disso”, completou Reginaldo Leme, comentarista das transmissões da Fórmula 1 na Rede Globo na época.

Antes de fechar o contrato com a Toleman, uma equipe mediana da Fórmula 1 na época, testou por três gigantes: a Brabham, a Williams e a McLaren, tendo impressionado a todos por sua velocidade. Infelizmente, por motivos variados, nenhuma equipe o contratou, restando mesmo ir para Toleman.

“Frank Williams sempre deixou claro que aquele teste de Donington era apenas um prêmio para o vencedor do campeonato inglês de F3 e porque desde aquela época ele já admirava bastante o Ayrton”, disse Reginaldo Leme, jornalista brasileiro que cobriu esse teste in loco na época. “A Williams tinha contratos assinados com Keke Rosberg e Jacques Laffite. Na McLaren, que também tinha Alain Prost e Niki Lauda, não havia chance de mudança de planos. A ideia de correr pela Brabham existiu e houve um momento em que, jantando com o Piquet em um hotel de Northampton, próximo a Silverstone, ele deu a entender que já estava quase certo de dividir a equipe com Senna. Na sequência disso, eu falei com o Senna no dia seguinte, e ele me disse que pelo que o Bernie lhe oferecia, não dava para aceitar. Chegou a usar a expressão: O Bernie tem que botar a mão no bolso. Isso mostra bem o quanto ele acreditava em si mesmo como piloto. Ou seja, ele preferiu um pacote dentro do qual teria poder de decisão do que entrar de cara em uma equipe já consolidada. E o que aconteceu na sequência mostrou que ele estava correto ao acreditar tanto em si mesmo”, completou Reginaldo.

“A primeira opção era a Brabham (...). A Toleman era a última. Na época, ele reclamava de não reconhecimento dos méritos dele nas categorias de base. Ao que se sabe, foram oferecidos a ele contratos leoninos, na base do “se quiser é assim”. Ele optou por rejeitá-los e foi para a Toleman”, contou Lito.

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Senna e a imprensa: um namoro longínquo

Ayrton sempre teve um olhar a frente e cuidou muito bem da sua figura pública, mesmo antes de entrar na Fórmula 1. Ele tinha em Keith Sutton, famoso fotógrafo inglês, além de um grande amigo, um enorme auxiliador em sua visibilidade, pois cedia suas fotos à imprensa, na época, se tornando ainda muito mais conhecido no meio e no público em geral.

“As corridas dele já tinham acompanhamento da imprensa, já se sabia que tinha um fora de série batendo à porta. Era esperado nos aeroportos porque todos queriam saber para que equipe da F1 ele iria. Além de vencer com mais frequência, tinha assessoria de imprensa forte, o que o Nelson [Piquet, que tinha acabado de se tornar bicampeão mundial de F1 em 83] sempre dispensou. Em 83, o Senna venceu 12 corridas da F3 inglesa, quebrando o recorde do Nelson, e venceu a 1ª Copa do Mundo de F3, em Macau”, lembrou Lito Cavalcanti.

Wagner Gonzalez, o Beegola, jornalista do Estadão na época, também lembrou que a imprensa era bem diferente daquela que encontramos hoje: “o número de jornais existentes na época era também muito maior, assim como o espaço do automobilismo na mídia e o acesso aos pilotos e personalidades da F-1, o que abria espaço para muitas pautas. Ainda não existia a polarização entre ele e Nelson Piquet e todos acreditavam que novos valores chegariam para manter o mesmo padrão de resultados”, comentou.

Além disso, o piloto que era para ser o grande ídolo brasileiro teve desentendimentos com os profissionais da comunicação, o que contribuiu para que Senna ganhasse ainda mais espaço: “Piquet, que já não se relacionava bem com os jornalistas desde 1978, passou a ignorar ainda mais a imprensa. Em 1978, Piquet foi campeão britânico de F3, mas segundo ele a mídia dava mais atenção a Chico Serra, outro brasileiro que disputou o título com ele”, lembrou Livio Oricchio.

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A estreia na Fórmula 1... de Pirelli

Dia 25 de março de 1984 marcou a estreia de Senna na Fórmula 1. O piloto brasileiro, com sua Toleman, teve um começo impressionante, mas sem um final dos mais felizes. Mas um fato fascinante é como aquela corrida, aquela estreia, marcou tanto diversas pessoas do meio.

“Me lembro de cada minuto [da corrida]. Estivemos juntos o tempo todo desde os testes de janeiro em Jacarepaguá. A corrida foi na última semana de março (dia 25) e, mesmo sem esperar mais do que a modesta Toleman permitia, e ter feito o 22º tempo no primeiro treino e 17º no segundo, entre os 27 carros do grid, cinco  segundos mais lento do que o pole, Elio de Angelis (Lotus), ele acreditava que poderia andar no segundo pelotão. Por isso ter sido o primeiro a abandonar a corrida depois da oitava volta, com problemas no turbo, acabou sendo uma grande decepção. Durante o jantar, mesmo ainda chateado, ele disse que acreditava numa evolução grande da equipe durante o campeonato, mas já reclamava da direção muito dura pra pilotar o carro. Tudo isso se confirmou já na corrida seguinte, duas semanas depois, na África do Sul. Ele marcou seu primeiro ponto, chegando em 6º lugar, mas, por causa dessa direção pesada, foi parar no ambulatório médico do autódromo de Kyalami e ficou quase uma hora pra se restabelecer”, revelou Reginaldo Leme.

“Sim, eu cobri aquela corrida, me lembro bem”, relembrou Lito sobre o GP do Brasil de 84. “Como a embreagem quebrou na largada (por erro de principiante, segundo a equipe), ele impressionou no treino classificatório. Foi 16º em um grid de 26 carros e enfiou quase dois segundos no companheiro de equipe, Johnny Cecotto, venezuelano que tinha sido campeão mundial de motociclismo e já tinha experiência de um ano de F1. E ainda foi mais rápido do que o arquirrival dos tempos da F3, Martin Brundle, que corria pela Tyrrell, equipe tradicional”, completou.

Beegola ainda lembrou de uma passagem muito interessante com um engenheiro da Pirelli na época: “Nessa época o responsável do departamento de competição da Pirelli era o simpático e afável Mario Mezzanotte, engenheiro dos mais capazes. Pessoa calma e didática, dedicava atenção especial não só às equipes que usavam os pneus italianos (então fabricados na unidade de Bicocca, meio do caminho entre Milão e Monza) na F-1, como também atendia jornalistas do mundo todo. A postura e a imagem de Mezzanotte já eram conhecidas: lembrava o professor pós-graduado sempre pronto para ajudar na elucidação de um problema e incentivar a pesquisa dos seus discípulos. Naquela tarde de treinos oficiais no Autódromo de Jacarepaguá, véspera do GP, o calor cobrava um preço alto de tudo que se movia nos 5.031 metros do saudoso traçado carioca. Quando o recém chegado Ayrton parou nos boxes com bolhas nos pneus de seu Toleman o que se viu foi um calouro irado extravasar abertamente sua frustração pelo problema que afetava a todos. Mezzanotte não perdeu a calma e foi procurar uma solução para o problema”, relembrou o jornalista do Estadão na época.

Para Livio Oricchio, outro fator marcante naquela época foi algo que todos viriam anos depois no embate contra Alain Prost, mas que Senna já demonstrou logo no começo, com seu companheiro de equipe. Um verdadeiro cartão de visitas.

“Lembro também, em relação ao evento no Rio, em 1984, o que Cecotto me contou anos mais tarde, quando acompanhava o filho, Cecotto Júnior, na GP2. O venezuelano entendeu logo que Senna o encarava como adversário, apesar de companheiro de equipe na Toleman. Senna se limitava aos procedimentos de praxe no grupo, mas sem interação maior com o companheiro. Mas Cecotto encarou com naturalidade o comportamento competitivo de Senna”, relembrou.

Dali para frente, Ayrton beliscou três pódios na Fórmula 1 1984, em Mônaco, Brands Hatch e Estoril, foi para a Lotus no ano seguinte, onde conquistou suas primeiras vitórias e rumou ao estrelato quando se mudou para a McLaren, em 1988, conquistando lá seus três títulos mundiais de Fórmula 1. Uma trajetória brilhante que teve a Pirelli como participante importante deste início de carreira.

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