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Ícones falam sobre a
paixão pelo automobilismo

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Quando falamos, pensamos ou sonhamos com algo que somos apaixonados, temos sempre o desejo de compartilhar isso com alguém que gostamos, trocando informações, trocando sentimentos, algo que alimente no nosso íntimo a chama desta paixão. Quando falamos de esporte, adrenalina, aventura, competição, temos vários exemplos de atletas ou atores que ajudam a personificar isso, assim como algumas pessoas que possuem o dom de levar esta paixão até quem está longe, milhares de quilômetros de distância, tocando seus corações.

Quando falamos de esporte a motor, no Brasil, fomos brindados por alguns ícones que ajudaram a moldar gerações de apaixonados, dentre eles, dois com quem fomos falar. Foram milhares de corridas acompanhadas, transmitidas, levadas de todas as partes do mundo até as nossas casas, durante anos e anos, por vários veículos, sejam eles digitais, eletrônicos ou impressos. Uma entrevista direta não era exatamente o que queríamos fazer, mas que tal um questionando o outro sobre suas carreiras, motivações e, claro, paixões, quando falamos do esporte a motor?

Com este norte definido, era só escolher os ícones e não poderíamos pensar em ninguém além do que Reginaldo Leme e Lito Cavalcanti, que emocionaram e emocionam, até hoje, milhões de fãs, como nós também somos. Acompanhe a entrevista de ambos, abaixo, e entenda um pouco melhor quem são estes dois ícones do nosso tão amado esporte.

Ícones falam sobre a paixão pelo automobilismo 01

Lito Cavalcanti: Como o automobilismo chegou a você e como ele afetou sua vida?

Reginaldo Leme: O automobilismo mudou plenamente a minha vida, mas alguns anos depois de eu ter me apaixonado pelo esporte. A paixão foi a primeira fase, ainda criança, no interior de SP, correndo e organizando entre os amigos corridas de carrinhos de rolimã. Meus carros eram super bem cuidados, bem pintados, eu usava o número 45, e eram rápidos.

Muito mais tarde, quando entrei no jornalismo, já no jornal O Estado de S.Paulo e cobrindo esportes, eu passei a reivindicar a publicação de notícias de automobilismo. Consegui e, a partir de 1972, comecei a cobrir a Fórmula 1, seguindo um plano que eu apresentei à direção do jornal e, com muita insistência, principalmente do meu editor, Ludenbergue Góes, acabou sendo aprovado em tempo de eu viajar para fazer a cobertura da conquista do nosso primeiro título mundial, em setembro de 1972, com Emerson Fittipaldi, em Monza. Ao mesmo tempo em que eu conheci Monza, o que já me levava ao paraíso dos meus sonhos, ainda assisti à nossa primeira conquista de um Mundial.

Reginaldo Leme: Qual é o significado do automobilismo para você?

Lito Cavalcanti: É a parte mais importante da minha vida profissional, mas não só. É também objeto de estudo e de paixão, tanto no aspecto esportivo quando no científico. Grande parte da minha vida profissional foi dedicada a ele. Dá para dizer, sem exagero, que é uma parte enorme da minha vida. Começou na juventude, como colaborador voluntário (leia-se não remunerado), passou por uma fase de estudo de engenharia e dono de oficina parcialmente dedicada às corridas. Mais tarde, me levou ao jornalismo e, apesar de não ter dedicado toda minha carreira ao esporte a motor, o fiz pela maior parte dela. Com ele, escolhi e construí minha carreira profissional e, dele, tirei meu sustento por quase toda minha vida adulta.

RL: Qual a corrida ou personagem mais importante para você do esporte?

LC: São as pessoas que me fascinaram na juventude e despertaram em mim essa paixão. Em ordem cronológica: Bird Clemente, que me incendiou a alma com sua Berlineta Interlagos controlando milimetricamente suas derrapagens nas curvas do antiquíssimo circuito de rua da Barra da Tijuca (antes da construção da primeira versão do Autódromo do Rio de Janeiro); Jim Clark, o Escocês Voador, que me fazia sonhar com seu estilo sóbrio, hoje se diria minimalista, com que dominava a Fórmula 1 dos anos 1960; Colin Chapman, o gênio inventivo da equipe Lotus, o cérebro por trás dos sucessos de Clark, Rindt e Emerson. A corrida mais importante foi a Prova IV Centenário, disputada naquele mesmo circuito da Barra em 1965. Foi quando eu estreei como bandeirinha, como na época se chamavam os sinalizadores. Foi a primeira vez que vi de perto meus ídolos da época, o Bird, o Luisinho Pereira Bueno, o Wilsinho Fittipaldi, Ciro Cayres, Piero Gancia, Camilo Christófaro, Marinho Camargo. Junto a eles, os carros que povoavam meus sonhos: Berlinetas, Alpine, Simca Abarth e a controvertidíssima Ferrari 250 GTO com motor de Testa Rossa do Camilo, que venceu depois do Abarth do Jaime Silva perder uma vitória certa quando uma roda se soltou do carro com cubo e tudo. Foi um dia que definiu meus rumos na vida.

Ícones falam sobre a paixão pelo automobilismo 02

LC: Qual foi o momento mais marcante, e por qual razão, que você vivenciou?

RL: Eu vivi as oito conquistas do Brasil na F1 e todas foram muito marcantes. A de 1972, por ter sido a primeira. A de 1988, por ser a primeira do Ayrton Senna, e numa época em que ele e eu enfrentávamos alguns problemas de relacionamento. E a de 1981, quando fiz uma das melhores entrevistas da minha carreira com Nelson Piquet em Las Vegas. Essa reportagem significou para mim uma mudança de status significativa na Globo pelos elogios que recebeu do então diretor geral de jornalismo, Armando Nogueira, um dos maiores jornalistas que este País já teve.

RL: Em um mundo que rechaça cada dia mais os carros e motores à combustão, qual o futuro do esporte, de uma forma geral, para você?

LC: Vejo o futuro com certo pessimismo. Mesmo antes dessa pandemia, o automóvel já vinha perdendo espaço no imaginário coletivo. Para várias gerações, entre elas a nossa, um carro era a passagem para a liberdade, para a aventura. Era quase a emancipação. Hoje é o vilão que polui a atmosfera, que aprisiona as pessoas nos engarrafamentos. Não faz mais sonhar. Em algumas décadas, ele estará restrito a clubes de apaixonados, algo como as sociedades hípicas de hoje. Sim, seu destino é o mesmo dos cavalos e das carruagens. As competições continuarão, como o hipismo. Mas nada como foi até hoje, esmagado também por uma segurança que elimina a aura de destemor dos pilotos de uma outra época.

LC: Se você tivesse uma varinha de condão, o que você mudaria em tudo que você viu?

RL: Eu tive a sorte de viver os melhores anos da F1, que foram os de 1970 e 1980. E acompanhei muito de perto a carreira de Emerson Fittipaldi. Se eu tivesse o poder de mudar alguma coisa, seria a decisão de Colin Chapman, dono da Lotus, que em 1973 se recusou a dar ordem de equipe para Ronnie Peterson trocar de posição com Emerson. Chapman protegeu muito o Peterson, mas desprezou a pequena chance que Emerson ainda tinha de ganhar aquele campeonato. E ele, de fato, teria ganho, porque o Jackie Stewart, campeão do ano, deixou de marcar pontos nas duas últimas corridas – Canadá e Estados Unidos – e Emerson poderia ter se tornado bicampeão naquele ano. Ele acabou sendo bi, mas só em 1974.

RL: Se você tivesse que apresentar o esporte para alguém que não o conhece, convertendo em mais um apaixonado, como faria?

LC: Seria algo no gênero vem ver enquanto existe, vem ver uma coisa que apaixonou multidões, que criou ídolos imortais, que moveu bilhões de dólares, que ganhou o mundo e que, infelizmente, vem-se perdendo nos tempos atuais. Corre enquanto é tempo.

LC: Olhando para trás, qual foi a melhor época para se trabalhar como jornalista no automobilismo?

RL: É muito fácil eu dizer que foi nos anos 1970 porque era o começo de minha carreira na F1 e tudo era muito encantador para mim. Mas eu não posso me esquecer de que peguei toda a fase de ouro do Brasil na F1, que começou em 1972, mas atravessou os anos 1980 e entrou pelos 1990. Isso quer dizer que vivi as gerações de Emerson, Piquet e Senna. Nem mesmo os jornalistas alemães, que conviveram com Michael Schumacher, tiveram um período tão espetacular como este que eu tive. Em consequência do sucesso de nossos campeões (oito títulos mundiais), nós, jornalistas brasileiros, também éramos recebidos no meio de forma especial. Foi numa dessas, em conversa comigo, que saiu a famosa frase do Ken Tyrrell, numa brincadeira. Na tentativa de encontrar explicação para a origem do talento do piloto brasileiro, Tyrrell respondeu a uma pergunta minha: “Deve ser a água que vocês bebem lá“.

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